O Haiti permanece no centro de uma profunda e interconectada crise política, humanitária e de segurança. Nesta segunda-feira, a situação no país caribenho voltou à mesa de debates no Conselho de Segurança da ONU.

Os 15 países-membros do órgão ouviram uma análise do impacto do crime organizado sobre a população e o que deve ser feito para restaurar a ordem e a soberania do Haiti.

Mais de 2,3 mil mortos em 6 meses

No encontro, foram apresentados os dados do mais recente Relatório do Secretário-Geral sobre o Escritório Integrado da ONU no Haiti, Binuh, acompanhados por exposições da diretora-geral do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, Unodc, Monica Juma, e da secretária-geral adjunta, Daniela Kroslak. 

O debate contou ainda com as intervenções do representante especial e chefe do Binuh, Carlos Ruiz Massieu, e do representante especial para a Força de Supressão de Gangues, Jack Christofides.

© WFP
Cooperação multilateral e o compromisso renovado da comunidade internacional representam os sinais mais concretos de esperança

Segundo estimativas do Escritório da ONU para os Direitos Humanos, apenas nos primeiros seis meses de 2026 a violência no país deixou pelo menos 2.310 mortos, 99 sequestros e 699 vítimas registradas de violência sexual. 

Paralelamente, centenas de crianças são aliciadas e traficadas por facções criminosas. Calcula-se que grupos armados controlem até 90% da capital, Porto Príncipe, avançando sobre os departamentos de Centro, Artibonite e Sudeste.

Controle geográfico

Além dos ataques diretos à população civil, as gangues mantêm o domínio sobre infraestruturas críticas, como portos, depósitos de combustível, rodovias estratégicas e cidades fronteiriças. Esse controle geográfico visa monopolizar as cadeias de suprimentos e extorquir a população local.

Embora as recentes operações conduzidas pelas forças de segurança tenham forçado o recuo de criminosos em pontos estratégicos e recuperado alguns prédios institucionais, a ONU adverte que esses avanços continuam sendo parciais e extremamente frágeis.

© WFP/ Sylvain Barral
Controle geográfico visa monopolizar as cadeias de suprimentos e extorquir a população local

Para conter a escalada da criminalidade, Carlos Ruiz Massieu relembrou o relatório de maio sobre as opções de Desarmamento, Desmantelamento e Reintegração, DDR, elaborado em cumprimento à Resolução 2814 do Conselho de Segurança.

As propostas apresentadas pelo secretário-geral variam desde um plano de resposta rápida de 12 meses, orçado em US$ 13,5 milhões, até um programa abrangente estimado entre US$ 100 milhões e US$ 150 milhões.

Fundo de vários parceiros 

A recomendação principal da ONU defende a implementação do plano plurianual, acompanhado da criação de um fundo de vários parceiros, copresidido pelo governo do Haiti e pelas Nações Unidas, para garantir um financiamento estável, flexível e previsível para as ações de DDR.

A sustentação da crise haitiana é alimentada por um complexo ecossistema de crime organizado transnacional. 

O tráfico ilegal de armas de fogo viabiliza os confrontos diretos, enquanto o tráfego de drogas, principalmente cocaína e maconha, consolida-se como a maior fonte de receita das redes criminosas, ampliando a relevância logística do Haiti nas rotas do Caribe. 

Somam-se a esse cenário o contrabando de migrantes, o tráfico de pessoas, a corrupção e a lavagem de dinheiro, elementos que desestruturam ainda mais o tecido social do país.

Complexidade do cenário

Após visita oficial ao território haitiano, a diretora-executiva do Unodc, Monica Juma, enfatizou que a complexidade do cenário exige um apoio internacional coordenado em duas frentes. 

Ela defendeu a necessidade de intervenções imediatas para neutralizar o domínio das gangues, combinadas a esforços contínuos para fortalecer marcos legais, construir instituições públicas sólidas, proteger populações vulneráveis e restaurar os meios de subsistência no país. 

Apesar dos desafios severos, a cooperação multilateral e o compromisso renovado da comunidade internacional representam os sinais mais concretos de esperança na busca por estabilidade para o povo haitiano.

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Com informações da ONU

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