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Início - São Paulo - Startup apoiada pela Fapesp usa inteligência de dados para antecipar falta de água no campo

Startup apoiada pela Fapesp usa inteligência de dados para antecipar falta de água no campo

RedacaoBy Redacaojunho 13, 2026Nenhum comentário5 Mins Read
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Antes mesmo de o sol nascer, o produtor enfrenta um dilema desgastante: a lavoura clama por água, mas a decisão de acionar o sistema exige um sacrifício. Ele precisa percorrer quilômetros até a casa de bombas, sem qualquer garantia de que o rio terá vazão suficiente para sustentar a operação. É uma jornada cega e solitária, em que o risco de descobrir, tarde demais, que o manancial não suportará a demanda, é uma realidade que consome tempo e recursos preciosos.

A solução identificada pela startup paulista Spectrum, apoiada pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da Fapesp, para auxiliar os produtores agrícolas a enfrentar situações como essa foi expandir a aplicação de uma plataforma de internet das coisas (IoT), batizada PalmaFlex, que lançou em 2019 para monitorar a umidade do solo. O sistema foi desenvolvido sob o comando de Adilson Chinatto e Cynthia Junqueira, engenheira eletricista com mestrado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Startup apoiada pelo PIPE-FAPESP prevê disponibilidade hídrica de mananciais para apoiar decisões em cenários de chuvas irregulares (Imagem: divulgação/Spectrum)

LEIA TAMBÉM: Governo de SP lança prêmio inédito para reconhecer municípios paulistas por eficiência em obras de saneamento e segurança hídrica

A premissa do novo sistema, batizado de PalmaFlex Total, é transformar medições dispersas em informações práticas. A tecnologia combina sensores instalados no solo, comunicação de dados de longo alcance via rádio — capaz de cobrir áreas de até 3 mil hectares — e modelos de inteligência artificial para estimar a disponibilidade hídrica. Trata-se de uma solução robusta, de baixo custo de manutenção e alta conectividade em áreas remotas.

A plataforma ainda permite monitorar variáveis como vento, radiação solar e temperatura, além de detectar falhas em motores.

LEIA TAMBÉM: Tarifa Social Paulista: desconto na conta de água ajuda moradores das comunidades a viverem com mais dignidade

Foco no manancial

Mananciais são fontes naturais de água, como córregos, riachos e rios. Em grandes propriedades produtoras de grãos, o ponto de captação geralmente é um afluente de menor volume, que perde vazão rapidamente em meses de estiagem — variando conforme o regime pluviométrico.

A maioria das grandes fazendas utiliza o pivô central, sistema que exige pressão constante na bomba para irrigar grandes áreas circulares. Quando a vazão é insuficiente, o equipamento não atinge a pressão mínima e pode desligar automaticamente. “Isso é mais que desperdício de tempo: uma irrigação irregular prejudica o desenvolvimento da lavoura”, explica Chinatto. Em culturas como soja e milho, falhas em momentos críticos podem comprometer a safra inteira.

Com a ferramenta da Spectrum, o profisisonal responsável pela decisão de irrigação obtém uma previsão da vazão. A plataforma indica se há água suficiente para operar o sistema ou se é preferível aguardar, considerando, por exemplo, a previsão de chuvas nas cabeceiras da bacia.

Essa capacidade preditiva influencia decisões estratégicas, como o momento ideal para ligar os pivôs, a viabilidade de investir em novos reservatórios, o ajuste na janela de plantio ou a escolha por culturas menos dependentes de irrigação. “É uma estratégia baseada em dados, semelhante à que produtores já utilizam para chuvas”, destaca Junqueira.

A segunda função da tecnologia consiste na análise de dados públicos de pluviometria da bacia hidrográfica a montante (região superior da bacia, responsável por abastecer o rio), cruzados com imagens de satélite e previsões meteorológicas. Como essa área elevada dita o fluxo, o volume de chuvas registrado nela impacta diretamente a vazão a jusante — o trecho do rio onde se localiza o sistema de captação — com dias de antecedência..

Com base nisso, o sistema oferece previsibilidade de até 16 dias, permitindo que o produtor programe a irrigação com precisão. A expectativa é ampliar esse horizonte conforme os modelos evoluem.

Esse conjunto de informações permite calcular o balanço hídrico — a diferença entre a água que entra (chuvas/irrigação) e a que sai (evapotranspiração) —, essencial para determinar o manejo preciso das culturas.

Resultados reais

Junqueira destaca ainda o valor da ferramenta para a renovação da outorga — autorização governamental de uso da água, renovada a cada cinco anos. Dados históricos de vazão registrados no PalmaFlex Total fornecem evidências fundamentais para negociações sobre a disponibilidade hídrica real da propriedade.

Além disso, os dados ajudam a qualificar a imagem da agricultura irrigada. Embora o setor seja frequentemente visto como responsável pelo esgotamento hídrico, fazendas com práticas conservacionistas podem, na verdade, aumentar a infiltração e a recarga dos mananciais. “Existem propriedades que, graças a essas técnicas, agem como geradoras de água”, diz Chinatto. A plataforma permite documentar esse fenômeno, abrindo caminho para pleitear bonificações ambientais.

Expansão acelerada

“O potencial é vasto, especialmente diante das mudanças climáticas”, avalia Chinatto. A distribuição das chuvas tornou-se mais irregular, com secas prolongadas intercaladas por eventos extremos.

O projeto também aponta para aplicações urbanas: a mesma lógica pode ser usada pela Defesa Civil para monitorar pequenos rios que cortam cidades, antecipando enchentes e emitindo alertas precoces. Assim, uma tecnologia desenvolvida para garantir a segurança alimentar no campo prepara-se para proteger também as áreas urbanas.

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Com informações da Agência São Paulo

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