Essas preocupações intensificaram-se depois de um ex-pesquisador da empresa de IA “Anthropic” ter alertado, no início deste mês, que a IA poderia representar uma ameaça existencial para a humanidade.
Trabalho coordenado é “indispensável”
Para a ONU, a melhor forma de fazer face aos riscos globais da IA é reunir os países para que adotem princípios e compromissos comuns em matéria de governação da IA.
Na semana passada, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que a ação em nível nacional é essencial, mas que a coordenação global é indispensável.
A ONU tem trabalhado, há vários anos, para proporcionar um fórum onde os países possam chegar a um entendimento comum sobre as tecnologias de IA.
Esta iniciativa também procura estimular o debate sobre formas de cooperação e o estabelecimento de um quadro regulamentar sobre questões de segurança, de direitos humanos e das disparidades no seu acesso.
A Inteligência Artificial está avançando numa velocidade supreendente
Desenvolvimento baseado em regras
O trabalho atual da ONU em matéria de governação da IA tem origem no Pacto Digital Global, adotado pelos Estados-Membros em 2024, como parte do Pacto para o Futuro da ONU, há exatamente dois anos.
O Pacto apela à cooperação internacional em matéria de IA e propõe um painel científico independente, para avaliar os riscos e as oportunidades da IA e um diálogo global anual, onde os governos e outras partes interessadas possam coordenar abordagens à governação da IA.
Estes mecanismos foram instituídos formalmente pela Assembleia Geral da ONU em agosto de 2025.
Avaliações independentes
O Painel Científico Internacional Independente sobre IA tem como objetivo fornecer aos governos uma avaliação independente do conhecimento existente sobre esta tecnologia em rápido desenvolvimento.
Por sua vez, o Diálogo Global sobre a Governação de IA reúne governos e outras partes interessadas para debater a cooperação internacional, partilhar experiências e trabalhar no sentido de uma maior compatibilidade entre as diferentes abordagens à governação da IA.
A Assembleia Geral das Nações Unidas concebeu estas duas instituições de forma que se complementassem. O Painel Científico fornece os dados, e os países decidem, no Diálogo Global, quais as medidas a tomar em resposta.
Novas oportunidades, novas ameaças
O primeiro relatório preliminar do Painel Científico, divulgado a 1 de julho, concluiu que as capacidades da IA estão a evoluir rapidamente, especialmente em áreas como o raciocínio, a programação e a ciência, criando oportunidades significativas.
O documento também identificou riscos como a desinformação, a discriminação, as violações da privacidade, os ciberataques e a chamada “superinteligência”, que poderá tornar-se difícil de controlar.
Nas vésperas da Assembleia Geral, António Guterres reafirmou a necessidade de um entendimento comum sobre como promover o desenvolvimento seguro, protegido e responsável da IA.
O secretário-geral também sublinhou que esse entendimento deve permitir identificar quando sistemas cada vez mais poderosos podem exigir salvaguardas mais rigorosas ou medidas adicionais para gerir riscos potenciais.
Guterres defende investimento em inteligência artificial, educação e infraestruturas locais
Trabalhar no sentido de estabelecer limites para a IA
O trabalho da ONU surge num momento em que os debates passam da questão de saber se a IA deve ser regulamentada para questões sobre quais as salvaguardas que devem ser implementadas.
Na quarta-feira, António Guterres apelou à cooperação internacional para garantir que o desenvolvimento da IA se mantenha seguro, protegido e responsável.
O secretário-geral acrescentou que os esforços voluntários para abrandar o desenvolvimento da IA não serão suficientes se forem isolados, não verificáveis ou aplicados de forma desigual.
Guterres afirmou que a convocação de uma cimeira como parte de um processo que conduzisse a uma regulamentação eficaz não seria possível na próxima semana, mas que deveria acontecer em breve, com a participação dos setores público, privado, científico e da sociedade civil.
O chefe da ONU sublinhou que, se o desenvolvimento da IA deve abrandar quando os riscos se tornam demasiado elevados, são necessárias mais do que boas intenções.
Compromisso com a segurança infantil
O secretário-geral apelou à criação de um Compromisso para a Segurança Infantil e de um Fundo Global para a IA, que apoiaria os países em desenvolvimento na construção de infraestruturas e capacidades neste domínio.
Guterres sublinhou a necessidade de mecanismos de proteção que tornem a IA segura, transparente e responsável, colocando a dignidade humana no centro.
Embora os governos nacionais e regionais tomem as suas próprias decisões sobre a regulamentação da IA, o papel da ONU será reunir esses governos, fornecer uma base científica para os debates e identificar áreas de cooperação internacional.
O secretário-geral António Guterres fala à imprensa durante o lançamento do Relatório Preliminar do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial
IA em foco na Assembleia Geral 2026
Algumas fontes diplomáticas citadas em agências noticiosas especulam que o Conselho de Segurança irá debater a inteligência artificial durante a semana de reuniões de alto nível.
Na sede da ONU, à margem do Debate Geral, onde as preocupações com a IA irão, sem dúvida, ocupar um lugar de destaque no pódio, a Zona de Imprensa dos ODS da ONU irá organizar um evento a 21 de setembro.
Por seu turno, a série “IA e Desenvolvimento Humano” culminará com um debate a 23 de setembro. Ambos estes eventos irão centrar-se na relação entre a IA e a ação humana.
No decorrer da conferência de imprensa de quarta-feira, António Guterres também revelou que a IA será “um tema importante” nas suas conversações com os líderes mundiais na próxima semana.
Abrandar o desenvolvimento desenfreado
Ao comparar o desenvolvimento da IA à corrida ao armamento da época da Guerra Fria, o secretário-geral apelou à cooperação entre os países na vanguarda da IA, incluindo Estados Unidos e China, para abrandar o desenvolvimento da IA enquanto se continuam a avaliar os riscos.
Guterres entende que os países que possuem maior capacidade nas fronteiras de IA devem estabelecer mecanismos de contacto, proceder a um intercâmbio de informações e criar algumas salvaguardas comuns, evitando uma competição capaz de conduzir a um desastre gigantesco a nível global.
Com os mecanismos científicos e diplomáticos agora em vigor, a ONU continuará a trabalhar para transformar essa cooperação em ações concretas, à medida que a IA se torna cada vez mais poderosa.
source
Com informações da ONU


