A audiência foi proposta pelos vereadores Nabil Bonduki (PT) – presidente do colegiado – e Renata Falzoni (PSB), integrante da comissão. Para Falzoni, “a Estrada do M’Boi Mirim configura-se como um dos principais eixos estruturantes de mobilidade da zona sul da cidade de São Paulo, servindo também como importante eixo de conexão com os municípios de Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu, atendendo uma população numerosa e historicamente dependente do transporte coletivo”.
Já o vereador Nabil Bonduki pediu o debate devido à desistência da Prefeitura e do governo do Estado de São Paulo em construir o corredor de ônibus da Estrada do M’Boi Mirim, no trecho após o Terminal Jardim Ângela. “O corredor da M’Boi Mirim estava previsto como prioritário no Plano de Mobilidade de São Paulo, publicado em 2015, que previa a construção do corredor até 2020. A região do M’Boi Mirim é uma das regiões mais populosas da cidade de São Paulo e mais carente de redes de transporte coletivo de massa e de qualidade”.
Histórico do projeto
Reivindicada há mais de 30 anos pela população, a duplicação da Estrada do M’Boi Mirim foi anunciada em setembro de 2019 pelo governo estadual, com projeto elaborado pelo DER (Departamento de Estradas de Rodagem).
Com aproximadamente 16 quilômetros, a estrada funciona como o principal acesso ao centro da cidade para cerca de dois milhões de habitantes dos bairros Jardim Ângela, Capão Redondo e Campo Limpo. Regiões que dependem majoritariamente do transporte público.
Nesta terça-feira, a Prefeitura apresentou o projeto de revitalização da avenida do M’Boi Mirim. De acordo com o Executivo municipal, a obra prevê a implantação de um corredor central de ônibus. Segundo ainda a administração pública da capital, os gastos estão estimados em mais de R$ 445 milhões. As intervenções devem ser feitas em parceria com o governo do Estado. O prazo para conclusão é 2028.
Vereadores
O vereador Nabil Bonduki comemorou o anúncio, mas afirmou que vai fiscalizar. “Uma coisa é fazer uma avenida com o uso de inteligência artificial, com uma bela vista da avenida, outra coisa é virar um projeto do Executivo, serem feitas as desapropriações, serem feitas as obras e ser implantado o corredor de ônibus e todas as demais vias de mobilidade que estão previstas. Então, temos que comemorar, mas também vamos cobrar para que isso efetivamente aconteça”.
Renata Falzoni reforçou a sobrecarga do sistema de transporte na região e a falta de prioridade do Poder Público mesmo diante de números expressivos de circulação e demanda diária. “Estamos falando de uma realidade com cerca de 40 mil veículos circulando e um fluxo de aproximadamente 300 ônibus por hora nos horários de pico. São mais de 120 mil passageiros transportados diariamente, distribuídos em 19 linhas da SPTrans e cinco linhas da EMTU — um volume que supera, inclusive, o de regiões da zona leste que costumam ser prioridade quando o tema é transporte”.
“Ainda assim, essa região segue ignorada pelo Poder Público. É preciso resgatar o debate sobre eficiência no transporte de passageiros, mas, acima de tudo, entender que aqui a urgência é concreta e envolve o tempo de deslocamento e a qualidade de vida da população”, completou a parlamentar.
Autoridades e lideranças presentes
Ana Nassar, diretora do ITDP (Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento), falou sobre a importância das obras da estrada do M’Boi Mirim sob o ponto de vista técnico. “O transporte público é uma forma eficiente e equitativa de mover grandes quantidades de pessoas em ambientes urbanos densos. Ele tem que estar disponível e acessível para a população e tem que operar em rotas e horários fixos para maximizar o uso do espaço diário, reduzir os congestionamentos, reduzir o tempo que as pessoas precisam se deslocar e reduzir o custo de energia”.
“Cidades bem planejadas, com transporte público integrado e mobilidade a pé e por bicicleta, permitem que as pessoas passem mais tempo com suas famílias, com suas escolhas em termos de educação e de lazer, do que dentro de um transporte lotado”, disse Ana Nassar.
José Geraldo Araújo, do Fórum Viva Fundão, disse que a população reivindica melhorias na mobilidade urbana da região há mais de 30 anos. “Eles têm que nos respeitar. Não dá pra viver em uma situação de mobilidade urbana que nós vivemos no M’Boi Mirim. Nós temos 700 mil habitantes sendo transportados por apenas um modal de transporte. Isso é inadmissível”.
A representante do Fórum Pela Vida, Regina Paixão, alertou: “O povo não aguenta mais ser enganado”. Ela também chamou a atenção para a qualidade do transporte que atende ao território.
“Também temos que falar sobre o transporte sem qualidade que nós temos hoje. Temos um transporte que demora, temos linhas que não chegam em todos os bairros, quem está na Cidade Ipava, na Vila Gilda, tem que andar muito até chegar a um ponto que tem o transporte. E com chuva? E à noite, quando a gente chega da escola? Então, eu peço que a SPTrans também converse com a gente sobre a qualidade desse transporte”, destacou Regina Paixão.
Prefeitura
Representante da Siurb (Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras), o engenheiro fiscal Osmar Dias dos Santos reforçou o respeito da pasta pela realidade enfrentada pela população. “Eu conheço bem a região e sei o que vocês sofrem. Estamos aqui para cumprir o que foi acordado”.
Osmar também exibiu um vídeo do secretário Marcos Monteiro. O material trouxe dados e elencou as vantagens da obra para a região. “Agora tem a implantação de corredor de ônibus central, do lado esquerdo da via, a instalação de pontos de paradas de ônibus, ciclovia, faixa azul para motociclistas, todas as obras de drenagem para eliminar os alagamentos da região, enterramento da fiação aérea, nova iluminação de led, implantação de lombofaixas, construção e adequação de calçadas, acessibilidade para pedestres, paisagismo, e a nova sinalização viária, além de dispositivos de segurança”, destacou o secretário.
Participação popular
Moradora do bairro M’Boi Mirim e integrante do Movimento MTST, Joelma fez um apelo à Prefeitura cobrando atenção com os moradores locais. “Ao contrário do que se diz, a ocupação Vila Nova Palestina é hoje um ponto de segurança para pedestres à noite, em uma área que antes era abandonada. Também pedimos atenção urgente à linha de ônibus da Vila do Sol, que tem sido um castigo para os moradores, com crianças aguardando em condições precárias, carregando mochilas pesadas sem suporte adequado”.
Líder comunitária do Capela, Hanna disse que “a população está cansada de esperar”. Ela contou que desde 2012, a população aguarda a obra da ponte do Capela – projeto de R$ 32 milhões que previa melhorias da Baronesa até a Isabel de Oliveira.
“Aqui há muitos idosos e pessoas com deficiência, que enfrentam dificuldades diárias. Convido todos a irem ao Jardim Ângela e verem a realidade: pais que vêm do centro com filhos em cadeira de rodas precisam descer para pegar um micro-ônibus e ainda atravessar a rua. É sobre isso — conhecer o bairro e entender as necessidades reais das pessoas,” destacou Hanna.
Nilda Neves, representante do Movimento de Direito à Moradia, questionou: “Cadê o corredor, cadê a duplicação prometida? Já foram inúmeras manifestações e, até agora, nada saiu do papel. Fala-se em obras, mas não há recursos para atender quem será afetado, como as famílias que podem perder suas casas”.
“A cidade cresce, novas moradias surgem todos os dias, mas falta investimento em habitação para quem mais precisa. Quero aqui parabenizar os vereadores e parlamentares presentes hoje, porque são eles que, de fato, representam a nossa comunidade — não aqueles que aparecem apenas em época de eleição para pedir voto e depois desaparecem”, enfatizou Nilda.
A Audiência Pública pode ser conferida na íntegra clicando aqui.
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Com informações da Câmara Municipal de São Paulo
