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Início - Brasil - CineOP transforma Ouro Preto em capital da memória audiovisual

CineOP transforma Ouro Preto em capital da memória audiovisual

RedacaoBy Redacaojunho 25, 2026Nenhum comentário5 Mins Read
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As ladeiras de Ouro Preto voltarão a ser ocupadas pelo cinema. Não apenas pelas telas instaladas em praças, museus e centros culturais, mas por uma reflexão urgente sobre aquilo que um país decide guardar de si mesmo.

Entre os dias 25 e 30 de junho, a histórica cidade mineira recebe a 21ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, único evento brasileiro dedicado exclusivamente ao cinema como patrimônio cultural. Mais do que um festival, a CineOP consolidou-se, ao longo de duas décadas, como espaço estratégico para a preservação audiovisual, a formação de público e a construção de políticas para o setor.

Neste ano, o tema escolhido sintetiza a vocação do evento: “Um país existe nas imagens que preserva”.

A frase, aparentemente simples, abre uma discussão profunda sobre memória, identidade e pertencimento em tempos de excesso de produção digital e circulação instantânea de imagens:

“Um país existe nas imagens que preserva propõe justamente essa reflexão: o que escolhemos guardar diz muito sobre quem somos e sobre o que desejamos transmitir às próximas gerações”, afirma a diretora da CineOP, Raquel Hallak.

Segundo ela, preservar vai muito além de armazenar arquivos.


Ouro Preto (MG), 24/06/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Cineop transforma Ouro Preto em capital da memória do audiovisual brasileira. Diretora Raquel Hallack. Foto: Leo Lara/Universo Produção

A diretora da CineOP, Raquel Hallack, diz que preservar memória não é apenas conservar acervos – Foto Leo Lara/Universo Produção

“Preservar memória audiovisual não é apenas conservar acervos, mas garantir acesso, contexto e permanência das obras como parte viva da cultura”, destaca.

Ao longo de seis dias, a cidade patrimônio mundial se transforma em uma grande sala de cinema a céu aberto. Serão exibidos 135 filmes; entre longas, médias e curtas-metragens distribuídos em 42 sessões gratuitas, ocupando espaços emblemáticos como a Praça Tiradentes, o Centro de Artes e Convenções da UFOP e o Museu da Inconfidência.

Mas a CineOP não se limita à exibição de filmes. Ela articula debates, encontros de pesquisadores, oficinas, fóruns educacionais, masterclasses internacionais e o tradicional Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, reunindo profissionais que pensam o futuro da memória audiovisual no país.

A mostra dedica um dos seus três eixos curatoriais inteiramente à formação. A Mostra Educação reúne filmes produzidos em contextos escolares, experiências pedagógicas e obras que utilizam o audiovisual como ferramenta de descoberta, reflexão e transformação social.

O programa Cine-Expressão – A Escola Vai ao Cinema leva centenas de estudantes às sessões especialmente organizadas para diferentes faixas etárias, seguidas de debates e materiais educativos que ampliam a experiência em sala de aula.

Para Raquel Hallak, essa dimensão formativa é inseparável da missão do evento.

 “A curadoria da CineOP é construída a partir do diálogo entre preservação, história e educação. Por isso, a programação articula filmes restaurados, pré-estreias e produções contemporâneas, criando um campo de tensão produtiva entre passado e futuro, memória e invenção.”

No momento em que algoritmos determinam grande parte do consumo cultural, a mostra aposta no encontro presencial, na mediação crítica e no cinema como instrumento de leitura do mundo.

Um dos destaques da edição é a Mostra Competitiva Contemporânea Arquivos em Questão, que reúne cinco longas-metragens inéditos construídos a partir da ressignificação de imagens de arquivo.

Para Hallak, essa seleção revela uma transformação importante do cinema contemporâneo: “Os arquivos deixam de ser apenas documentos históricos e passam a funcionar como dispositivos vivos de criação, reflexão e reinterpretação do presente.”

Entre os títulos estão “Apocalipse Segundo Baby”, sobre Baby do Brasil; “Universo Circular – Jocy de Oliveira“; “Proust Palimpsesto“; “Irritante Prodígio” e “Notas sobre um Desterro“.

A mostra reforça uma tendência crescente do documentário contemporâneo: utilizar o passado para compreender as urgências do presente.

A grande homenageada desta edição é a cineasta Helena Solberg, pioneira do cinema brasileiro e uma das vozes mais importantes da produção audiovisual feminina na América Latina.


Ouro Preto (MG), 24/06/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Cineop transforma Ouro Preto em capital da memória do audiovisual brasileira. Helena Solberg. Foto: Ique Esteves/Universo Produção

A cineasta Helena Solberg é a homenageada da CineOP – Foto Ique Esteves/Universo Produção

Sua trajetória será celebrada com exibições especiais, debates e uma retrospectiva de sua obra.

Ao revisitar sua história para a homenagem, Helena faz uma leitura íntima de uma carreira construída entre o Brasil e os Estados Unidos: “Eu regulo minha vida pelos filmes. Fiz cerca de 20 filmes e vivi o cinema intensamente. Foi a única coisa que sempre esteve comigo”, afirma.

Ela lembra que começou sonhando em ser escritora: “Meu primeiro desejo era escrever. Eu tinha 17 anos quando escrevi uma novela inspirada por Françoise Sagan. Depois percebi que minha forma de expressão seria outra.”

Nos anos 1960, em meio às transformações políticas e culturais do país, ela realizou “A Entrevista” (1966), obra que se tornaria um marco do cinema feminista brasileiro. O filme, que abre a programação da homenagem na CineOP, reúne depoimentos de jovens mulheres refletindo sobre casamento, independência e liberdade.

Décadas depois, continua surpreendentemente atual: “Quando fiz A Entrevista, eu não imaginava que teria uma trajetória tão longa. Hoje, ele é visto como um documento histórico, mas continua dialogando com questões que ainda atravessam a vida das mulheres brasileiras.”

A cineasta viveu cerca de três décadas nos Estados Unidos e conta que foi justamente fora do país que aprofundou sua conexão com o Brasil: “A ironia é que fiquei mais perto do Brasil quando estava nos Estados Unidos. Lá eu era latino-americana. Passei a olhar para a América Latina de outra forma.”

Esse olhar resultou em obras fundamentais sobre identidade, política e direitos das mulheres, consolidando uma filmografia que atravessa fronteiras e gerações.

“Você precisa descobrir o que tem a dizer. Muitas vezes não sabemos. E esses momentos de dúvida são criativos, porque nos obrigam a procurar o que realmente queremos expressar.”

Ao completar 21 anos, a CineOP reafirma sua singularidade no cenário cultural brasileiro. Enquanto muitos festivais concentram-se no lançamento de filmes, a mostra mineira amplia o debate para temas estruturantes da cultura: preservação, educação, memória e patrimônio.


Ouro Preto (MG), 24/06/2026 - FOTO DE ARQUIVO - Cineop transforma Ouro Preto em capital da memória do audiovisual brasileira. Foto: Leo Lara/Universo Produção

Mostra de cinema transforma Ouro Preto em capital da memória do audiovisual – Foto Leo Lara/Universo Produção

**A repórter viajou à convite do CineOP

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Com informações da Agência Brasil

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