Através da ONU News, o comandante da força internacional, general brasileiro Ulisses Mesquita Gomes, enviou uma mensagem ao povo congolês: que a determinação permanece intacta, independentemente da gravidade da crise.
Novo desafio
Diante de um cenário alarmante e sem precedentes da crise de saúde, o general garantiu o compromisso absoluto das forças de paz em combater a emergência e proteger a população local.
Para Mesquita Gomes, a comunidade internacional segue na batalha para proteger a população, para a qual diz que não se recuará até vencer. A infecção está presente em 49 zonas de saúde em cinco províncias congolesas, o que requer ação global rápida e incisiva.
Tropas adentram as comunidades mais isoladas para conversar com líderes locais
“Nossa ideia é continuar implementando o nosso mandato de proteção de civis e, de apoio à parte de capacitação das Forças Armadas do Congo, todo o componente da Monusco, ao mesmo tempo que estamos enfrentando, juntamente com as autoridades da República Democrática do Congo, esse novo desafio que é o ebola.”
Onde uma crise sanitária sem precedentes encontra anos de violência, forma-se a tempestade perfeita, mas as forças de paz prometem que não recuam. No centro da crise, as tropas se reinventaram para garantir proteção civil e apoio vital na província de Ituri, o epicentro de um surto histórico de ebola.
Preço da propagação internacional do ebola
Para a comunidade internacional, combater o vírus na República Democrática do Congo vai muito além da medicina: é considerado um grande desafio logístico e de segurança. Afinal, como salvar vidas quando o próprio território é hostil?
Parceiros tentam ultrapassar a capacidade atual de resposta do país
Com estradas em ruínas, restrições aéreas severas em cidades-chave como Goma, Beni e Bunia, e a ameaça implacável de grupos armados como o M23, alcançar as áreas mais críticas tornou-se uma missão de resistência de alto risco.
“Não há voo comercial chegando em Bene ou Bunia. Goma também não há, mas por restrição ali já do M23, que está dominando toda aquela área, está sob controle a região de Goma. Porém, também não tem como utilizar o aeroporto de Goma devido ao ebola. E temos esta combinação de insegurança, deslocamento populacional em massa, movimentos fronteiriços que continuam difíceis, operações de resposta e isto, de alguma maneira, aumenta o preço da propagação internacional do ebola. Como é que se está a tratar desta questão? Para conter, sempre conter, a epidemia? Sim, a Monusco está trabalhando em cooperação com a Organização Mundial da Saúde, que é responsável pela resposta do sistema ONU, juntamente com o Governo da República Democrática do Congo.”
Aliança contra o ebola
Para virar o jogo contra o ebola, a Monusco, o governo congolês e a Organização Mundial da Saúde, OMS, formaram uma linha de ação e frente unida. A missão é garantir operações em zonas de alto risco, como Mangualu e Bunia, e blindar as instalações médicas desde o primeiro sinal do surto.
Mais do que presença física, essa aliança construiu uma ponte logística, capaz de transportar por terra e ar cerca de 35 toneladas de medicamentos e equipamentos vitais direto para as equipes da linha de frente.
Com um forte esquema de segurança e patrulhas intensificadas ao redor dos centros de tratamento, os profissionais de saúde agora contam com um escudo protetor para fazer o que fazem de melhor: salvar vidas.
Além do vírus: O desafio cultural e estrutural
Combater o ebola não tem sido apenas uma questão de suprimentos médicos, mas uma batalha que exige empatia e profunda compreensão local. O general Ulisses Mesquita Gomes aponta que o grande obstáculo das equipes é conciliar ricas tradições locais com a rigidez dos protocolos sanitários.
Comunicação entra em cena como uma ferramenta poderosa
Longos rituais fúnebres que envolvem o toque, tão importantes para a cultura congolesa, acabam se tornando o principal vetor de transmissão. Somando-se a isso, lares com famílias numerosas vivendo em espaços compactos aceleram a disseminação invisível do vírus.
Para complicar o cenário, os primeiros sinais do ebola se camuflam entre sintomas de doenças já endêmicas, como malária, cólera e febre amarela, adiando o diagnóstico até que hemorragias severas denunciem a gravidade.
Guerra invisível contra a desinformação
A resposta da Monusco tem sido o diálogo direto e constante. As tropas adentram as comunidades mais isoladas para conversar com líderes locais, ensinando de forma humana e respeitosa como a população pode se proteger.
No epicentro da crise, o medo e os boatos viajam tão rápido quanto a própria infecção. A Monusco enfrenta diariamente uma verdadeira avalanche de desinformação.
Para quebrar esse ciclo, a comunicação entra em cena como uma ferramenta poderosa através da Rádio Okapi, financiada pelas Nações Unidas.
Infecção está presente em 49 zonas de saúde em cinco províncias congolesas
Outro recurso é a presença nas redes sociais, a ação da liderança da ONU para esclarecer a dupla e vital missão na região: combater grupos armados ilegais enquanto atua como pilar de apoio à resposta médica da OMS.
Ação e promessa de esperança
Operar no olho do furacão exige cautela máxima, e o general destacou uma vitória espetacular da missão: a disciplina irretocável nos protocolos manteve 100% das forças de paz, policiais e servidores civis da ONU totalmente livres do vírus.
Esse é um marco que prova ao mundo ser plenamente possível aliar operações robustas de manutenção da paz ao engajamento comunitário seguro durante emergências globais de saúde.
Em meio a esse caos, a incrível resiliência do povo congolês brilha, com cidadãos lutando para manter a normalidade apesar do rastro devastador da doença. Durante as visitas às áreas mais críticas, como Mangualu, a resposta ouvida dos líderes comunitários foi de absoluto alívio e gratidão.
Além de proteger paredes de hospitais, a presença das forças internacionais devolveu a esperança. A mensagem da missão ecoando é que o mundo não virou as costas para o Congo, e a promessa de proteção continua de pé.
Para conter o avanço da maior e mais severa epidemia de ebola da história da República Democrática do Congo os parceiros tentam ultrapassar a capacidade atual de resposta do país.
Maior centro de tratamento da RD Congo
Uma delas é inauguração nesta semana do maior centro de tratamento da RD Congo com a ONG global Medical Corps, IMS. A iniciativa reforça a rede sanitária que já conta com cerca de 900 leitos distribuídos pelas cinco províncias afetadas.
A OMS adverte que a contenção da doença exige uma ampliação urgente e substancial dos recursos financeiros e operacionais, num aporte indispensável para reforçar a capacidade hospitalar, financiar equipes de investigação de campo, assegurar sepultamentos seguros e mobilizar agentes comunitários.
A agência defende que a estratégia precisa focar imediatamente nos epicentros atuais de contágio e antecipar as próximas rotas de expansão do vírus.
*Eleutério Guevane é jornalista-sênior da ONU News.
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Com informações da ONU
