Em discurso nesta quinta-feira na 30ª Cúpula Ibero-Americana em Madri, Espanha, o secretário-geral das Nações Unidas ressaltou o papel essencial da cultura na era da transformação digital.

Para António Guterres, a maior força da Ibero-América, região de 22 países latino-americanos que inclui Espanha, Portugal, é ser uma superpotência cultural. A comunidade se conecta por uma história compartilhada, valores comuns e pela riqueza de suas línguas.

Inteligência Artificial

“A cultura é inseparável da dignidade humana. No entanto, o direito à cultura, reconhecido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, continua a ser marginalizado. Esta Comunidade defende a cultura como um bem público mundial. Trata-se de uma aposta relativamente à qual é possível estarmos todos de acordo.”

A declaração ligou o resgate das raízes históricas ao futuro tecnológico. Ele defendeu que o progresso da Inteligência Artificial, IA, não deve preterir a diversidade linguística e a soberania das nações em prol dos interesses de um número reduzido de grandes empresas.

Pnuma/Duncan Moore
A 30ª Cúpula Ibero-Americana acontece em Madri, Espanha

Em um cenário global dominado por algoritmos e plataformas centralizadas, o avanço tecnológico impõe um novo desafio às identidades regionais, destacou o chefe das Nações Unidas. 

Cultura como escudo na era da IA 

Guterres ressalta a urgência de moldar a Inteligência Artificial para servir à pluralidade e à dignidade das pessoas.

“Na preservação das praças, dos teatros, das bibliotecas e de outros espaços que fortalecem as comunidades. Na defesa da liberdade dos artistas, sobretudo quando nos desafiam. Numa inteligência artificial que fale em todas as nossas línguas, sem que algumas poucas empresas decidam o que vemos, o que lemos e o que acreditamos. Quanto mais capazes forem as máquinas, mais precisaremos daquilo que nos torna humanos. A cultura ensina-nos a duvidar, a distinguir, a questionar e a colocarmo-nos no lugar do outro. Cultivemos o espírito crítico, com mais artes e humanidades na educação.”

Além de defender a soberania linguística e cultural, ele citou o fator humano frente às máquinas. Guterres disse que quanto mais autônomas e capazes se tornam as máquinas, mais vitais se fazem a empatia, as artes e as humanidades na educação para cultivar o discernimento e o questionamento.

Proteger a diversidade do pensamento

O secretário-geral apontou ainda a cultura como bem público, além de defender a liberdade artística como “a única garantia para proteger a diversidade do pensamento diante da padronização digital”.

Guterres relembrou o impacto libertador da canção “Grândola, Vila Morena” na Revolução dos Cravos de 1974 em Portugal, reafirmando que a arte e a música são ferramentas atemporais de transformação social.

Para o líder das Nações Unidas, a cultura permanece como o único ponteiro capaz de fazer o ser humano reconhecer no outro a sua própria humanidade, sendo nesse reconhecimento que a paz se constrói.

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Com informações da ONU

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