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Início - Mundo - Do mar ao solo: um pescador se reiventa em meio à crise no norte de Moçambique

Do mar ao solo: um pescador se reiventa em meio à crise no norte de Moçambique

RedacaoBy Redacaoagosto 13, 2025Nenhum comentário6 Mins Read
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Paulo Benedito construiu a sua vida em torno do mar. Nascido e criado em Quissanga, uma pequena cidade costeira na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, ele provém de uma família de pescadores.  

A relação com o mar era mais do que um meio de vida, mas sim uma transmitida de geração em geração.

Nascer do sol 

Na sua rotina laboral, Paulo pegava no seu barco de madeira e saía antes do nascer do sol. Horas depois, retornava horas com peixe suficiente para alimentar sua família. E, se a pesca fosse boa, o remanescente era colocado à venda no mercado local.  

 Quissanga sempre foi lar e lugar de estabilidade, porém tudo mudou em 2021 com ataques de grupos armados

@FAO/Maria Legaristi Royo

Quissanga sempre foi lar e lugar de estabilidade, porém tudo mudou em 2021 com ataques de grupos armados

Neste processo, conseguia uma renda modesta que permitia que ele mandasse os seus filhos para escola, sustentasse a esposa e contribuísse para o bem-estar de sua comunidade. 

De Quissanga a Chiúre  

Quissanga sempre foi o seu lar e um lugar de estabilidade, porém tudo mudou em 2021, quando grupos armados, conhecidos como “Ansar al Sunna” ou “al Shabab”, e outros ligados ao Estado Islâmico, lançaram ataques violentos na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique. 

Eu fico com toda vontade sabendo que os meus filhos já não vão ter muito sofrimento.

Os extremistas queimaram casas, saquearam aldeias, sequestraram civis e deslocaram à força dezenas de milhares de famílias. 

Paulo Benedito viu sua rotina de paz se tornar, com milhares de outros moradores, numa situação de terror que arrasou toda a comunidade. Vivenciou de perto a morte de entes queridos e viu a transformação do lugar que ele chamava de lar, em um campo de batalha. Tudo mudou da noite para o dia. 

Inicio de uma nova vida e a agricultura  

Forçado a fugir, Paulo chegou ao Centro Meculane para Deslocados Internos, em Chiúre, com a esposa e cinco filhos. Uma das crianças é um sobrinho que se órfão após a irmã de Paulo ter morrido na violência dos grupos armados. 

Ele lembra que a transição foi assustadora. A agricultura era um território desconhecido, e a ideia de recomeçar em uma profissão completamente nova parecia avassaladora. Mas Paulo não tinha escolha, seu barco, suas ferramentas, sua casa, tudo havia desaparecido em Quissanga. 

Apoio da FAO  

Foi no Centro Meculane que Paulo participou dos treinamentos agrícolas oferecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, FAO, na comunidade. Ele cita a experiência. 

“Então me escolheram como um produtor líder naquele líder, fiz todas técnicas. Comecei andar aqui no centro com 30 membros, aprendi muitas coisas boas na agricultura, sobre sementeira em linha, fazer adubo orgânico, fazer pesticida orgânico também, aprendi quase isso tudo aqui em Meculane em 2022.”  

FAO em coordenação com o Governo de Moçambique a ajudar comunidades como a de Paulo Benedito

@ FAO/Maria Legaristi Royo

FAO em coordenação com o Governo de Moçambique a ajudar comunidades como a de Paulo Benedito

 

Após anos de trabalho árduo e aprendizado na prática, Paulo e sua esposa agora administram espaços agrícolas enormes equivalente a um hectare.  Eles cultivam uma variedade de produtos agrícolas com destaque para feijão, milho, melancia, ervilha, amendoim, quiabo e mandioca.  

2025 ano promissor

Ele divide a colheita em três finalidades: consumo familiar, armazenamento de sementes para a próxima safra e venda do excedente no mercado local.  

No presente ano, 2025, Paulo considera um ano de sucesso e conta com excedentes para venda que poderão cobrir as diversas necessidades como mensalidades escolares dos cinco filhos, roupas, remédios e pequenas economias. 

“Este ano aqui agradecer consegui muito  porque esta machamba ate agora já colhi milho, consegui 12 sacos de 50 quilos, ervilha também ainda tem muito mas por enquanto tenho aqui 300 kg, mas ainda tem muito, este que restou é que é muito, em relação aos que tenho aqui, Cebola ainda estou a regar, ainda não esta pronto, mas mostra uma boa garantia. Feijão Boer tenho mais em relação a outros produtos, por enquanto tenho 350 quilos.”  

Sonho de um pai  

Na prática da agricultura, Paulo Benedito vai passando o testemunho aos seus filhos, aos fins de semana, trabalha com os mais velhos de 10 e 12 anos que se juntam ao trabalho, aprendendo habilidades, por sinal um dos sonhos. 

“Meu sonho…desejava de alguns serem técnicos agrônomos, outros serem enfermeiros, professores, muito mais técnicos agrônomos, cientistas da agricultura porque eu vi que estas coisas que eu andei a citar são importantes para mim mesmo e para os meus filhos.” 

Paulo também sonha em expandir suas atividades, criar mais gado e construir um lar mais seguro para seus filhos.  

Em 2022, a FAO forneceu quatro galinhas a Paulo. Desde então, sua galinhada cresceu, atualmente conta com 26, proporcionando à família um suprimento constante de ovos e carne e uma fonte extra de renda com a venda de pintinhos. 

Agricultura uma profissão de renda 

A ONU News questionou ao Paulo Benedito, sobre o desejo de retomar a anterior profissão, a de pescador. Paulo diz que perdeu todo material de pesca em Quissanga e não sonha retomar a atividade pesqueira pois considera que a agricultura é rentável. 

“Na agricultura há mais rendimento em relação a pesca. Quando eu comecei a fazer práticas agrícolas, eu não compro produtos alimentar, só compro roupa, pasta para as crianças e as crianças comem livremente não ficam com aquela vontade de dizer, eu se eu tivesse aquilo podia comer, não tem aquela atitude  só sofre de outras como como vestuário…na parte de comer estou agradecer não estamos a sofrer, vejo que a agricultura tem muita vantagem e consigo também ter dinheiro.”

Ataques recentes de grupos armados em julho provocaram o deslocamento de milhares de pessoas nos distritos de Chiúre, Ancuabe e Muidumbe

Ataques recentes de grupos armados em julho provocaram o deslocamento de milhares de pessoas nos distritos de Chiúre, Ancuabe e Muidumbe

Em 2024 e 2025, a FAO, com financiamento do Banco Africano de Desenvolvimento, iniciou um novo projeto na região, e Paulo recebeu sementes para o cultivo de repolho, cebola, tomate e abóbora. Essas culturas permitiram que ele diversificasse suas refeições e melhorasse a nutrição de sua família. 

Mortes – Estatísticas 

A FAO em coordenação com o Governo de Moçambique e seus parceiros, a continuam a ajudar comunidades como a de Paulo a fortalecer sua resiliência para que, mesmo diante da incerteza, possam continuar a crescer, prover e trabalhar por um futuro melhor.

Dados do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, Ocha, citam que ataques recentes de grupos armados entre 20 e 28 de julho provocaram o deslocamento de milhares de pessoas nos distritos de Chiúre, Ancuabe e Muidumbe.

Há relatos que Chiúre foi a zona mais atingida, com mais de 42 mil pessoas desalojadas, deste número mais da metade são crianças

*Texto adaptado por Ouri Pota, correspondente da ONU News em Maputo, do original “From sea to soil : A journey of reinvention amidst crises in northern Mozambique” @ FAO/María Legaristi Royo

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Com informações da ONU

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